Psicodrama: ciência da ação

“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me   considerar rei do espaço infinito...”

                                       Shakespeare, Hamlet, ato 2, Cena 2

 Segundo o físico Stephen Hawking, no seu belo livro “O Universo Numa Casca De Noz” (Hawking, 2001), o que Shakespeare talvez tentasse expressar, através de Hamlet com a epígrafe acima, é que, apesar de limitações físicas, nossas mentes estão livres para explorar todo o universo e para avançar audaciosamente.

Ao questionar como nossas mentes, finitas, poderiam compreender um universo infinito, Hawking lembra de Prometeu, personagem mitológico, condenado por Zeus por ousar romper com os “limites” dos humanos, ao tentar roubar o fogo, símbolo da sabedoria, para os seres humanos.

No caso do animal humano, visto sob a ótica evolucionista, foi por sua condição de um ser espontâneo e com capacidade criadora ilimitada, que ele produziu uma série de transformações em seu meio. A partir da sua necessidade, inicialmente de sobrevivência e, posteriormente, para seu conforto, de dar respostas e soluções aos obstáculos enfrentados, o homem acabou desenvolvendo, cada vez mais, sua capacidade de construir conhecimentos e as diferentes formas de apreender o mundo e seus fenômenos, ou seja, passou a ter o domínio do fogo, da sabedoria.

Moreno,  nosso  protagonista,  também  teve  a  audácia de querer criar o homem Deus, aquele que é capaz de produzir a centelha divina. Para Moreno, com uma teoria-metodologia    fundada    na    ação    e    nos   conceitos    de   espontaneidade-criatividade,  poderíamos   libertar    as  amarras  que  restringem  e  dificultam  nossa  capacidade de dar respostas criativas.

Hoje, no mundo científico, o nome Jacob Levy Moreno ainda não obtém o crédito de que achamos ser ele merecedor. Ao defendermos o uso do seu método de ação e sua teoria, é por acreditarmos que eles possam contribuir de forma efetiva com uma “revolução criativa” no campo da saúde.

Segundo Moreno (1923:57),

Há dois mil anos, a humanidade sofreu, como nós hoje, uma crise de primeira grandeza. Para as grandes massas, a catarse proveio do Cristianismo, devido á universalidade dos seus métodos e à praticabilidade dos seus instrumentos – amor e confissão, caridade e esperança – em vez da que promanava das escolas filosóficas do Egito e da Grécia. Em nosso tempo, as ciências sociais e mentais têm em mira um propósito semelhante ao que a religião atingiu outrora. As massas humanas sofrem de inquietação social e mental. Provavelmente, a catarse virá de novo de instrumentos que combinam a universalidade de método e grande praticabilidade. Um dos métodos mais promissores desenvolvidos nos últimos vinte e cinco anos e que preencheu essas exigências é o método psicodramático” (Moreno, 1993).

É este  método que pode contribuir para mudar o processo de nossa vida na qual acabamos sendo “muito mais pacientes da ação do que seus agentes". Assim, passaríamos da condição de criatura a de criador.O ator social, ao participar de uma dramatização, na qual tentamos fazer com que ele se sinta como se estivesse em uma situação real, é observado como “o ator”  in situ  e, no seu ritmo, ao ir “na direção de sua produtividade” (Moreno, 1992), aqui, no caso da construção de sua saúde.

 O pressuposto dessa atitude é que só podemos estudar o cliente:

“à medida que sua produtividade for emergindo durante o tempo em que estiver sendo estudado. Se você o induzir – por motivos de pesquisa – a aquecer-se em direção para a qual não esteja preparado ou que seja contrária às suas inclinações, você introduzirá um elemento de artificialidade ao seu “controle” que não pode ser trabalhado, adequadamente, por argumentação ilativa [de fora para dentro] e lógica”(Moreno, 1992).  

Para Moreno(1992:183), dentro de uma ciência da ação não é feito o erro de atrelar o mundo natural, o organismo e o mundo de atores. “O organismo é abstração, uma abstração do ator e o comportamento é abstração, uma abstração do ato”. Ao diferenciarmos comportamento de ação, nosso foco passa a ser o ator in situ.

Uma ciência de ação dispensa o uso de categorias como organismos, comportamentos e catexes. Ela é baseada nos encontros e conflitos e se torna possível a partir de dois verbos: ser e criar e com três substantivos: atores, espontaneidade e criatividade (Moreno, 1992).

Portanto, o Psicodrama, termo criado por Moreno,  pode ser definido como:

1. a ciência que explora a “verdade” por métodos dramáticos” (1993);

o método que penetra a verdade da alma através da ação. A catarse   que   ele   provoca   é   por   isso  uma  “catarse  de  ação” (1974).

Para referendar essa posição citamos o psicólogo social Helmuth Krüger, mesmo ele não fazendo nenhuma menção a Moreno ou ao Psicodrama, para ele, “a ação tem revelado ser um conceito heurístico dotado de eficiência teórica”, podendo ser definido como “condutas  intencionais,  dirigidas  para o futuro e amparadas pela compreensão do sentido dos fatos e do contexto em que nos encontramos. Tais condutas são ações” (Krüger, 1993).

Krüeger  também  diferencia  comportamento  de  ação.  Para ele, comportamentos são “manifestações parciais, limitadas no espaço e no tempo, e por isso mesmo mais acessíveis à observação e  à  pesquisa empírica ou experimental” (op.cit.). Este autor adverte que não há uma oposição entre estes conceitos, “desde que se acolha a idéia da possibilidade da subsunção [interpretação] de comportamentos por ações”, ou seja, admitindo que as ações “para a sua realização necessitem de comportamentos que, por sua vez, fiquem subordinados ao plano estabelecido pelas ações”.

É através das técnicas psicodramáticas que podemos objetivar as queixas psicossexuais, no sentido de torná-las concretas, observáveis e passíveis de transformação. “A dramatização traz uma abertura para o estado de espontaneidade criativa pelo qual o protagonista recria sua história e a re-significa”( Antonio, 2002).

Um dado interessante destacado por Krüeger (op.cit.), para nossa abordagem sócio-psicodramática, é que a “ocorrência de ações é mais provável nos casos em que nos expressamos com maior liberdade (...) mas, obviamente, são muito menos requeridas, sendo até dispensáveis, quando se tratar de situações que exijam respostas mais ou menos padronizadas”( Semin&Manstead apud Krüeger op.cit.).

          Essas respostas padronizadas são passadas, segundo Moreno(1992), pela forma como reagimos, no sentido de lutar, resistir, desde que nascemos, à estrutura dos relacionamentos de atração, repulsão e de indiferença ou neutros, que encontramos na família e  depois  na  sociedade


   
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